O meu marido meio a brincar meio a sério diz-me regularmente
que devia ter nascido homem. Desde pequena sempre achei que se tivesse nascido
homem teria dominado o mundo. Não é que ao ser mulher essa possibilidade fique
automaticamente fora de coagitação no entanto à que reconhecer que é bastante
mais difícil.
Nunca chorei em público, engolia as emoções e esperava pela
noite para chorar sozinha. Aprendi cedo a fazer “o que era preciso”. Não
preciso de um homem para mudar uma lâmpada, verificar as tomadas, furar a
parede com berbequim. Não preciso de um homem para me pagar as contas, na
verdade sou eu que estou encarregue dessa gestão. Engraçado como o que
aprendemos na primeira infância acaba por nos definir e toldar o pensamento na
idade adulta. Um homem pode chorar em publico e continuar a ser homem no
entanto se eu chorar em público deixo de ser “homem” para voltar a ser apenas
uma “mulher”. Eu sou uma mulher, não “apenas uma mulher”! Uma mulher que não se
permite feminismos. Uma mulher que se tenta comportar como acha que um homem se
comporta. Estranho não?
Afinal o que sou? Serei eu o terceiro género?