terça-feira, 17 de outubro de 2017

Serei eu o terceiro género?


O meu marido meio a brincar meio a sério diz-me regularmente que devia ter nascido homem. Desde pequena sempre achei que se tivesse nascido homem teria dominado o mundo. Não é que ao ser mulher essa possibilidade fique automaticamente fora de coagitação no entanto à que reconhecer que é bastante mais difícil.

Nunca chorei em público, engolia as emoções e esperava pela noite para chorar sozinha. Aprendi cedo a fazer “o que era preciso”. Não preciso de um homem para mudar uma lâmpada, verificar as tomadas, furar a parede com berbequim. Não preciso de um homem para me pagar as contas, na verdade sou eu que estou encarregue dessa gestão. Engraçado como o que aprendemos na primeira infância acaba por nos definir e toldar o pensamento na idade adulta. Um homem pode chorar em publico e continuar a ser homem no entanto se eu chorar em público deixo de ser “homem” para voltar a ser apenas uma “mulher”. Eu sou uma mulher, não “apenas uma mulher”! Uma mulher que não se permite feminismos. Uma mulher que se tenta comportar como acha que um homem se comporta. Estranho não?

Afinal o que sou? Serei eu o terceiro género?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Olho do furacão

Ao longo da minha vida tenho sempre vivido momentos de intensa felicidade seguidos de momentos de profunda tristeza. Não me lembro de ter tido momentos de calmaria, de relax puro, gosto de viver nos extremos. Extremo de felicidade e extremo de tristeza. Não acredito em mares calmos.
No entanto, foi preciso passar a barreira dos 30 para genuinamente sentir uma grande tristeza alheia, não por mim mas pela minha irmã. Estamos em polos opostos da vida. Eu estou num momento de pura felicidade enquanto esta mulher que me é tão próxima está no olho do furacão da tristeza. Tira-me o sono sabê-la mal. Tira-me a paz saber que ela sofre. Destrói-me o coração ver a minha querida irmã como um fantasma, uma leve lembrança da mulher cheia de força e de vida que já foi um dia. Algures no tempo esta mulher e mãe esqueceu-se que era um ser humano maravilhoso, que tinha um brilho que iluminava uma sala quando entrava, não era preciso falar para perceber que ela tinha entrado em casa. Um amor quebrou-a, desiludiu-a e ela aceitou, e está disposta a continuar a aceitar. O motivo? Família, amor, medo... Não sei. Mesmo depois de ser mãe continuo sem perceber como é que uma família de pai e mãe juntos mas infelizes é melhor do que pai e mãe separados mas bem resolvidos com a vida, e até quem sabe com uma vida refeita ao lado de outra pessoa.
Que tipo de falta de amor por mim, quanta desvalorização tenho de ter por mim para preferir uma pessoa ao meu lado que não me ama? Não há sentimento, não há amor, não há carinho. O que sobra é a prevalência da vontade de um dos lados: “EU consegui que não te fosses embora”. Parabéns porque felicidades não me parece que a vás conseguir. És tão melhor do que aquilo que pensas.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O cromossoma


E se eu não for capaz?

Acho que desde cedo tive consciência que a minha vida seria muito mais fácil se tivesse nascido homem. Se eu fosse um homem ia pertencer automaticamente ao “clube” . Podia ir jogar ténis sempre que quisesse ao final do dia sem me preocupar com o jantar ou o banho dos miúdos porque eles teriam a mãe para tratar desses pormenores. Poderia chegar a casa e tomar o banho e jantar sossegado, isto porque a minha esposa já teria o jantar feito e os miúdos provavelmente já estariam a dormir. No dia a seguir de manhã não teria de me preocupar com a roupa porque certamente a minha esposa já teria lavado e colocado para passar a ferro a roupa da semana anterior. Não teria de me preocupar com as compras para casa, no máximo  diria à minha mulher que a pasta de dentes acabou e que ela se tinha esquecido de comprar mais. Ah, e não teria de me preocupar com a alimentação dos miúdos, isso é coisa para as mães se preocuparem, e por isso não teria de me preocupar se a sopa e o segundo prato estavam feitos a tempo e horas, se a fruta tinha sido tirada do frigorifico a tempo de já não estar gelada e os miúdos poderem comê-la à sobremesa.

Claro que iria ajudar a minha esposa. Por exemplo se ela se atrasasse iria ligar-lhe e perguntar o que é o jantar e até lhe podia fazer o favor de dar a papa ou o leite aos miúdos e encomendar jantar para nós. Mas não me peçam para saber qual a caixa de comida congelada tenho de tirar do congelar. Eu sei lá como é que se descongela a comida no micro-ondas, isso é coisa de mulheres. Ah o jantar dos miúdos também me atrapalha por isso nada de complicações, no dia a seguir a minha querida esposa trata de lhes dar um jantar saudável como ela gosta.

Se eu fosse um homem o trabalho seria tão mais fácil. As mulheres lutam demais no escritório e às vezes ficam descontroladas. É muito mais fácil trabalhar com homens, além disso às 4ª feiras seria dia de jogar padle e se trabalhássemos todos na mesma equipa ficaria mais fácil para nos coordenarmos. Ao almoço também iria preferir almoçar com os rapazes lá do escritório, as mulheres têm sempre demasiadas tarefas a fazer à hora de almoço e isso ia-me obrigar a comer à pressa se quisesse ter companhia. É que, as mulheres, inventam que precisam de fazer coisas à hora de almoço: ir às compras, ir ao banco, à farmácia, comprar a pasta de dentes que acabou mas tem de ser aquela especial que só existe numa ervanária porque os meus dentes são sensíveis...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Infinitamente Potencial

Ontem por um comentário, bastante inocente diga-se, percebi que as mães e os pais não nascem ao mesmo tempo. Eu senti-me mãe no momento em que o teste deu positivo, a partir daquele momento eu senti amor e um instinto animal de proteção. O meu marido só se transformou em pai bastante mais tarde. Acredito que não foi no parto que se transformou em pai, foi talvez quando teve de ficar sozinho com o filho a primeira vez.

Tudo começou quando referi que tinha muito medo de perder um filho na fase final da gravidez ele responde-me mas aí ainda não és mãe não podes comparar com perder um filho com 7 anos. Não sei porquê mas aquilo magoou-me muito. Desde quando é que se pode medir o sofrimento de uma mãe pela quantidade de anos que o filho viveu? Eu já era mãe antes de parir. Não sei se era com a mesma intensidade que sou hoje passado um ano mas com toda a certeza que era mãe. Acredito que o comentário não tenha sido mais do que um desabafo sem grande consciência do que estava a dizer, estávamos a conversar e saiu a pérola. Por outro lado fiquei a pensar que realmente os homens são de marte mas as mulheres são de um planeta vénus mas de outra galáxia! Não estamos sequer no mesmo comprimento de onda.
As nossas emoções, os nossos sentimentos não podem ser explicados porque a sua complexidade vai levar ao inevitável “tu pensas demais”. Não meu amor, eu não penso demais, mas sou infinitamente mais potencial do que tu.

Bom fim de semana

 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Felicidade

Quais os momentos em que sou realmente feliz?
Quando tenho o meu filho a dormir nos meus braços sou a mulher mais feliz do mundo. Quando o vejo a rir e a dar gargalhadas sinto o peito a explodir de alegria.
Quando ele deu os primeiros passos. Não foi na escola, não foi em casa dos avós, não foi num outro sitio qualquer. Foi comigo! E isso deixou-me imensamente feliz.
Quando ele olha para a gata e já diz o seu nome sinto-me a mais orgulhosa do mundo.
Quando me abraça e dá beijinhos só porque sim, apetece-me congelar esse momento e ficar assim para sempre.
Quando chora por mim só porque eu saí da sala e fui até à cozinha sinto-me a pessoa mais importante do mundo.
Sou uma sortuda, todos os dias consigo ser feliz.  

terça-feira, 27 de junho de 2017

Inveja da boa



A mãe feliz que brinca no parque completamente satisfeita com a sua vida, com uma filha linda de cabelos aos cachos é o meu mais recente motivo de inveja.

Invejo-a porque ela consegue brincar no parque. Invejo-a porque a filha está limpa e nem precisa de babete. Invejo-a porque reuniu as condições necessárias para ficar em casa com a filha até aos 2 anos. Encontro sempre desculpas para não fazer igual. Não porque não me apeteça mandar tudo às urtigas e ir para o parque com o meu filho, mas porque algures no meu crescimento enquanto Pessoa me desviei do que realmente é importante ou, mais provável ainda, só descobri o que era realmente importante muito tarde.
O meu filho evoluiu mais comigo numa semana do que na escola um mês. Pode ser apenas coincidência e ele estar simplesmente a crescer mas levou-me a questionar aquela velha máxima de “crianças na escola aprendem mais”. Se calhar não é bem assim...
Sempre tive a convicção que ninguém tomaria tão bem conta do meu filho como eu. Partindo deste principio, tive de escolher um sitio, no caso uma creche, onde eu também achasse que ele ficava bem. E até acredito que fica, só não fica tão bem como se estivesse comigo. Então mas se comigo ele aprendeu mais coisas, digam-me lá outra vez porque é que a escola é mesmo melhor do que eu?
O ideal? Para mim seria ele estar de manhã e almoçar comigo. Depois podia ir à escola brincar, conhecer amigos novos, aprender novas competências, e lanchar com os outros meninos. Depois ia buscá-lo ao final da tarde (máximo 18:00h) brincávamos um bocadinho, dava-lhe o banho e depois o jantar.
E o trabalho? Não sei. Mas sei que nada pode ser mais importante do que este pequeno ser pelo qual sou inteiramente responsável. Afinal, todos nós sem exceção, não nascemos de uma vaca pois não? 


segunda-feira, 5 de junho de 2017

O meu filho


O meu filho não começou a andar aos 8 meses nem a falar ao 10.

O meu filho não toca guitarra nem piano aos 12 meses.  

O meu filho acorda muitas vezes por noite, e chora e precisa de comer no máximo de 4 em 4 horas.

O meu filho não dorme no quarto dele desde os 3 meses.

O meu filho é um miúdo reguila e teimoso.

O meu filho é a criança mais sorridente que eu conheço mas não gosta de estranhos.

O meu filho adora banho e mar mas detesta piscina.

O meu filho não é um boneco. É uma pessoa com vontade e com personalidade.

O meu filho adora animais, não tem medo de nenhum e fica muito feliz quando consegue tocar na gata ou fazer festas a um cão.
O meu filho dá-me abraços e beijinhos e chama por mim. Gosta de conhecer o que é novo, primeiro ao meu colo e depois sozinho.

O meu filho gosta de telefones de brincar e comandos da TV. O meu filho não vê desenhos animados mas gosta dos programas da National Geographic com os animais.

O meu filho adora brócolos, gelatina e frango assado mas não o convencemos a comer alperces nem pêssegos.

O meu maior desejo é que ele se torne numa boa pessoa e seja feliz. Coloque felicidade e amor em todas coisas e que cometa muita loucuras boas.

O meu filho é único assim como cada criança deve ser.
Vamos confiar?


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Eu, o adulto

Qual o momento da infância que nos define hoje como adulto?
Tenho alguns momentos que guardo na memória como momentos de transformação. Um deles quando pedi dinheiro à minha mãe para comprar gomas, porque todas as meninas na escola compravam no intervalo, e a minha mãe me disse “não, e se as outras meninas querem elas que levem o dinheiro”.  Eu só queria comprar gomas...
Outro momento foi quando não quis ir a uma aula de piano e os meus pais me tiraram definitivamente. Reconheço que não era um prodígio e que se calhar o dinheiro lhes fazia falta, mas foi um dia em que não me apetecia não era preciso tanto...
Depois houve momentos soltos que me marcaram. Nas festas de final de ano os meus pais nunca iam. Nos aniversários dos meus amigos, eu quase nunca ia porque tinha de ir com os meus pais arranjar a venda para o dia seguinte e não havia tempo para essas coisas.
E depois o momento final em que desisti de lutar por aquilo que queria, pelo menos até sair de casa. Foi o momento em que toda a turma foi acampar e eu não fui porque não me deixaram ir. Não houve grandes justificações, não houve gritos e argumentos. Houve um “Não, não sejas parva”. Até hoje não percebo o que tinha de parvo ir acampar...
A vida segue e nós ficamos adultos, e queremos fazer tudo diferente. Sinceramente não sei se farei melhor. Os meus pais, à sua maneira e na sua forma apoiaram-me. Durante períodos muito conturbados da minha vida eles deram-me a mão e ajudaram da forma que sabiam, e verdade seja dita também não me saí assim tão mal.
O que quero fazer diferente com o meu filho?
Dizer-lhe que é normal mudar de ideias. É normal tentar e falhar. É normal querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e vai haver dias em que por muito que se goste não vai apetecer fazer. Explicar-lhe os Nãos que vai receber. E o mais importante de tudo: quero dizer-lhe todos os dias que ele é melhor do que todas as minhas expectativas, e que o amor que sinto por ele é superior a todos os disparates que ele possa pensar em fazer na vida.
Não é só mostrar-lhe com gestos, é dizer-lhe com palavras.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Todo o meu mundo

A maternidade é muitas vezes sinónimo de solidão. Uma solidão diferente porque efetivamente não estamos sozinhas. Temos alguém que depende de nós e confia em nós cegamente mesmo quando somos as primeiras a duvidar. A imagem do bebé a dormir no berço enquanto a mãe está noutra qualquer divisão da sala ou falar com as amigas que vieram fazer uma visita não pode estar mais longe da realidade. E ainda bem!
Quando fui mãe tive ajuda das pessoas que me eram mais próximas nas tarefas normais que uma casa exige. Pouco tempo depois percebi que nem sempre essa ajuda é de facto "ajuda".  Quando as palavras “Tens de te orientar e tratar melhor a casa, não podes andar sempre com o bebé ao colo” foram proferidas acho que foi das maiores dores que já senti.  Doeram, principalmente, porque foi alguém em quem confiava muito.
O meu filho não é um candeeiro que deixo sozinho em cima da mesa de cabeceira e do qual só me lembro quando preciso de luz. É um ser humano ao qual eu quero dar todo o amor e carinho possível. Esta é a maternidade em que acredito. Não temos brinquedos aos montes espalhados em todas as divisões da casa. Não temos cadeiras topo de gama, espreguiçadeiras que se abanam sozinhas, nem o quarto decorado desde que o teste de gravidez deu positivo.
O bebé dorme no nosso quarto, o berço está “agarrado” à nossa cama, e o brinquedo preferido são uns tablas do pai que sempre estiveram na sala. E somos felizes assim. Cantamos, rimos e choramos como família, com amor e aconchego. Acredito que vai chegar o tempo do meu filho ter o seu quarto, e querer mais e mais brinquedos e pedir para ver desenhos animados. Mas de momento a etapa onde nos encontramos é a da partilha de amor, calor e espaço físico. E o resto? Não sei, neste momento este é todo o meu mundo.  

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Entradas Diversas

O meu pior pesadelo é não estar presente para o meu filho. Não estar lá quando ele chamar à noite, quando tiver um pesadelo ou apenas quiser o mimo da mãe. Porque ninguém poderá amar o meu filho tanto como eu. Ninguém dará o carinho que ele precisa de forma natural e irracional tal como eu dou.
É neste contexto que o universo das famílias reconstruídas me causa calafrios. Não me compreendam mal, eu própria tenho uma família com entradas diversas. Os dele e o nosso compõem um ramalhete de crianças nem sempre muito fácil de gerir.
Às vezes digo ao meu marido que se por acaso nos separássemos ia debater com todas as minhas forças para que o meu filho passasse o máximo de tempo comigo e que ia ser muito difícil deixá-lo passar uma noite fora, com o pai e outra mulher. Não que o pensamento de ver o meu marido com outra mulher seja o fim do mundo mas porque ela não o ia aconchegar nem amar como eu.
Ninguém ama como uma mãe ama. Ou pelo menos ninguém ama nem amará o meu filho como eu amo. Ele não será o primeiro e último pensamento dessa nova mulher na sua vida.
Já passei uma vez por uma separação e foi o pior momento da vida. Hoje penso: e se eu tivesse tido filhos será que me separava?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Conto de fadas



A discriminação de género está presente todos os dias até mesmo em meios que à partida tal não seria de esperar. Está presente nos pequenos gestos. Quando não te convidam para o café e o cigarro, quando não fazes parte da lista para o Padel ou para o  paintball. Está presente quando és excluída das “piadas internas” que entendes mas finges não entender.

Tanta coisa mudou nos últimos 10 anos. A maternidade veio alterar as prioridades e criar sentimentos ambíguos em relação aos desafios laborais. O que me motiva todos os dias? O meu filho. É por ele e para ele que me levanto todos os dias. Se devia ser assim? Não. O suposto era levantar-me motivada e adorar o meu trabalho e estar sempre linda, penteada e maquilhada e com um sorriso na cara. À noite conseguia colocar a criança a dormir a seguir ao jantar e ainda teria tempo para fazer amor apaixonado com o meu marido depois de partilharmos um copo de vinho tinto enquanto conversávamos sobre o nosso dia. Deixei-me dizer isto de uma forma crua: é Impossível.

Não somos máquinas, os nossos filhos não são máquinas. A vida não segue um guião. As desilusões são diárias e a nossa resistência física e emocional não é ilimitada. Os nossos maridos que foram educados como verdadeiros imperadores veem-se agora obrigados a serem companheiros e a fazer coisas que outrora pensaram ser feitas por osmose cósmica.  E nós que fomos educadas para nos sentirmos princesas não poderíamos estar mais longe dessa realidade.

Seremos nós um conto de fadas falhado de príncipes e princesas frustrados?