segunda-feira, 29 de maio de 2017

Eu, o adulto

Qual o momento da infância que nos define hoje como adulto?
Tenho alguns momentos que guardo na memória como momentos de transformação. Um deles quando pedi dinheiro à minha mãe para comprar gomas, porque todas as meninas na escola compravam no intervalo, e a minha mãe me disse “não, e se as outras meninas querem elas que levem o dinheiro”.  Eu só queria comprar gomas...
Outro momento foi quando não quis ir a uma aula de piano e os meus pais me tiraram definitivamente. Reconheço que não era um prodígio e que se calhar o dinheiro lhes fazia falta, mas foi um dia em que não me apetecia não era preciso tanto...
Depois houve momentos soltos que me marcaram. Nas festas de final de ano os meus pais nunca iam. Nos aniversários dos meus amigos, eu quase nunca ia porque tinha de ir com os meus pais arranjar a venda para o dia seguinte e não havia tempo para essas coisas.
E depois o momento final em que desisti de lutar por aquilo que queria, pelo menos até sair de casa. Foi o momento em que toda a turma foi acampar e eu não fui porque não me deixaram ir. Não houve grandes justificações, não houve gritos e argumentos. Houve um “Não, não sejas parva”. Até hoje não percebo o que tinha de parvo ir acampar...
A vida segue e nós ficamos adultos, e queremos fazer tudo diferente. Sinceramente não sei se farei melhor. Os meus pais, à sua maneira e na sua forma apoiaram-me. Durante períodos muito conturbados da minha vida eles deram-me a mão e ajudaram da forma que sabiam, e verdade seja dita também não me saí assim tão mal.
O que quero fazer diferente com o meu filho?
Dizer-lhe que é normal mudar de ideias. É normal tentar e falhar. É normal querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e vai haver dias em que por muito que se goste não vai apetecer fazer. Explicar-lhe os Nãos que vai receber. E o mais importante de tudo: quero dizer-lhe todos os dias que ele é melhor do que todas as minhas expectativas, e que o amor que sinto por ele é superior a todos os disparates que ele possa pensar em fazer na vida.
Não é só mostrar-lhe com gestos, é dizer-lhe com palavras.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Todo o meu mundo

A maternidade é muitas vezes sinónimo de solidão. Uma solidão diferente porque efetivamente não estamos sozinhas. Temos alguém que depende de nós e confia em nós cegamente mesmo quando somos as primeiras a duvidar. A imagem do bebé a dormir no berço enquanto a mãe está noutra qualquer divisão da sala ou falar com as amigas que vieram fazer uma visita não pode estar mais longe da realidade. E ainda bem!
Quando fui mãe tive ajuda das pessoas que me eram mais próximas nas tarefas normais que uma casa exige. Pouco tempo depois percebi que nem sempre essa ajuda é de facto "ajuda".  Quando as palavras “Tens de te orientar e tratar melhor a casa, não podes andar sempre com o bebé ao colo” foram proferidas acho que foi das maiores dores que já senti.  Doeram, principalmente, porque foi alguém em quem confiava muito.
O meu filho não é um candeeiro que deixo sozinho em cima da mesa de cabeceira e do qual só me lembro quando preciso de luz. É um ser humano ao qual eu quero dar todo o amor e carinho possível. Esta é a maternidade em que acredito. Não temos brinquedos aos montes espalhados em todas as divisões da casa. Não temos cadeiras topo de gama, espreguiçadeiras que se abanam sozinhas, nem o quarto decorado desde que o teste de gravidez deu positivo.
O bebé dorme no nosso quarto, o berço está “agarrado” à nossa cama, e o brinquedo preferido são uns tablas do pai que sempre estiveram na sala. E somos felizes assim. Cantamos, rimos e choramos como família, com amor e aconchego. Acredito que vai chegar o tempo do meu filho ter o seu quarto, e querer mais e mais brinquedos e pedir para ver desenhos animados. Mas de momento a etapa onde nos encontramos é a da partilha de amor, calor e espaço físico. E o resto? Não sei, neste momento este é todo o meu mundo.  

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Entradas Diversas

O meu pior pesadelo é não estar presente para o meu filho. Não estar lá quando ele chamar à noite, quando tiver um pesadelo ou apenas quiser o mimo da mãe. Porque ninguém poderá amar o meu filho tanto como eu. Ninguém dará o carinho que ele precisa de forma natural e irracional tal como eu dou.
É neste contexto que o universo das famílias reconstruídas me causa calafrios. Não me compreendam mal, eu própria tenho uma família com entradas diversas. Os dele e o nosso compõem um ramalhete de crianças nem sempre muito fácil de gerir.
Às vezes digo ao meu marido que se por acaso nos separássemos ia debater com todas as minhas forças para que o meu filho passasse o máximo de tempo comigo e que ia ser muito difícil deixá-lo passar uma noite fora, com o pai e outra mulher. Não que o pensamento de ver o meu marido com outra mulher seja o fim do mundo mas porque ela não o ia aconchegar nem amar como eu.
Ninguém ama como uma mãe ama. Ou pelo menos ninguém ama nem amará o meu filho como eu amo. Ele não será o primeiro e último pensamento dessa nova mulher na sua vida.
Já passei uma vez por uma separação e foi o pior momento da vida. Hoje penso: e se eu tivesse tido filhos será que me separava?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Conto de fadas



A discriminação de género está presente todos os dias até mesmo em meios que à partida tal não seria de esperar. Está presente nos pequenos gestos. Quando não te convidam para o café e o cigarro, quando não fazes parte da lista para o Padel ou para o  paintball. Está presente quando és excluída das “piadas internas” que entendes mas finges não entender.

Tanta coisa mudou nos últimos 10 anos. A maternidade veio alterar as prioridades e criar sentimentos ambíguos em relação aos desafios laborais. O que me motiva todos os dias? O meu filho. É por ele e para ele que me levanto todos os dias. Se devia ser assim? Não. O suposto era levantar-me motivada e adorar o meu trabalho e estar sempre linda, penteada e maquilhada e com um sorriso na cara. À noite conseguia colocar a criança a dormir a seguir ao jantar e ainda teria tempo para fazer amor apaixonado com o meu marido depois de partilharmos um copo de vinho tinto enquanto conversávamos sobre o nosso dia. Deixei-me dizer isto de uma forma crua: é Impossível.

Não somos máquinas, os nossos filhos não são máquinas. A vida não segue um guião. As desilusões são diárias e a nossa resistência física e emocional não é ilimitada. Os nossos maridos que foram educados como verdadeiros imperadores veem-se agora obrigados a serem companheiros e a fazer coisas que outrora pensaram ser feitas por osmose cósmica.  E nós que fomos educadas para nos sentirmos princesas não poderíamos estar mais longe dessa realidade.

Seremos nós um conto de fadas falhado de príncipes e princesas frustrados?